Tive o privilégio de conhecer o João Mesquita. De ir com ele ao futebol, de o ter como parceiro de conversas...de o ter como amigo "mais velho". Tive o privilégio de poder observar a especial relação com a sua filha e acima de tudo de pensar muitas vezes como gostava de ouvir os outros da mesma forma que o João ouve...
Não posso deixar de transcrever o texto que José Manuel Pureza fez acerca deste amigo na revista Rua Larga, cujo seu editor era precisamente o João.
Poucos são os que passam no crivo exigentíssimo de irem além de um “modo funcionário de viver”, metralhado por Alexandre O’Neil. O João Mesquita foi inquestionavelmente um desses poucos que teve uma vida grande e não uma vidinha. Essa grandeza fundou-se na sua invulgar verticalidade e coerência, na sua exigência de princípios e intransigência de recusas. Mas isso nunca rimou com sisudez nem com amargura. Foi sempre expressão de uma paixão incontida pela liberdade e por um apego teimoso à solidariedade. João Mesquita foi um dos melhores de Coimbra. Aqui nasceu em Junho de 1957, aqui quis voltar no princípio dos anos noventa, na ressaca de um jornalismo a ficar sem espinha e cada vez mais respeitosamente aquietado perante os pequenos e grandes poderes. Amou Coimbra e lutou por ela, comprometendo--se com activismos cívicos vários e, mais que tudo, vivendo e trabalhando aqui com a mesma exigência e ousadia que teria numa qualquer grande capital do mundo. E a cidade tratou-o mal. Foi a soberba auto-convencida de algumas pequenas elites coimbrãs que atirou um jornalista de excepção para o degredo. Na verdade, essas vidinhas nunca souberam reconhecer a vida grande que era o João Mesquita. Porque a sua liberdade insubmissa as incomodou sempre. Fez bem a Universidade de Coimbra ao chamar o João para a Rua Larga. Resgatou a sua dignidade para a cidade.João Mesquita foi um dos melhores da Académica. Não desistiu de a ver e viver como um baluarte de civismo desportivo e uma instituição com memória, muito mais do que como uma simples equipa de futebol, rendida aos ditames e truques do chico-espertismo mais torpe. O testemunho dessa visão – a monumental “Académica: história do futebol”, que construiu com João Santana - foi talvez o motivo primeiro da sua incrível resistência à doença. Cada uma daquelas páginas é um testemunho vibrante de paixão, em tudo semelhante à de Totó pelos fragmentos de filme que recebe como herança em Cinema Paraíso.João Mesquita foi um dos melhores do jornalismo. “Posso dizer que (…) aprendi a ler pelos jornais”, haveria de recordar. O seu percurso por muitos jornais foi feito de firmeza na defesa de uma escrita crítica (e, por isso, séria) na compreensão dos factos. O João assistiu à proletarização dos jornalistas, à sua transformação em produtores de conteúdos e à capitulação do jornalismo rigoroso às mãos das assessorias de imprensa. Com sabedoria, advertiu que “as redacções pensam pouco, agem ainda menos e as direcções e administrações (…) só pensam no lucro imediato”. “Por que não tem este jornalista lugar numa redacção?”, perguntou quem o entrevistou. A resposta era óbvia e não precisava de ser dada. O João Mesquita foi sempre um dos melhores na amizade. O João foi um camarada, no sentido mais denso que a palavra tem – nos jornais, na política, no desporto, na vida. Ele sabia que a amizade é uma rua larga. A mais larga de todas. É nessa rua que o João vive. Para sempre.
José Manuel Pureza,
Rua Larga, 24

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